A mudança


Rui Borges nunca teve uma verdadeira lua de mel no Sporting, ele entrou na ressaca do estrondoso falhanço de João Pereira e ainda apanhou com aquilo a que eu chamo o "sindrome da rapariga mais bonita da escola", que é aquilo que acontece invariavelmete  a quem entra numa relação com alguém que acabou de sair de outra onde vivia completamente apaixonado. 

Amorim era a tal rapariga mais bonita da escola por quem os Sportinguistas estavam apaixonados, pelo que viesse quem viesse a seguir, nunca escaparia às inevitáveis comparações de quem estava habitiuado a um sorriso lindo e passou a viver com sorisos amarelos.

Rui Borges ganhou a "dobradinha" e fez a melhor campanha europeia da história do Sporting, mas quando perdeu a Taça com uma equipa da 2ª Liga, ficou marcado para sempre. Ele, e nós Sportinguistas, que ainda não percebemos o que é que aconteceu naquele dia, tal como estamos para perceber revolução no plantel que se seguiu. Foi uma espécie de mudança de casa para esquecer a tragédia recente, mas que não surtiu os efeitos desejados, pelo que o divórcio era inevitável, apesar do Presidente dizer que não queria repetir os erros do passado.

O primeiro treinador de Varandas foi Marcel Keizer, numa altura em que não havia dinheiro nem capacidade para atrair muito melhor do que um holandês desconhecido. Não se pode dizer que tenha corrido muito mal, mas os 5-0 da Supertaça foram pesados demais para que ele se aguentasse.

Varandas imaginou então que podia fazer de Leonel Pontes, o Lage do Sporting, numa altura em que o treinador mais adepto da história do Benfica ainda estava em estado de graça, mas não deu certo e muito menos foi acertada a aposta que se seguiu em Silas, um treinador que não tinha nada que o pudesse recomendar, que não fosse uma fezada.

Ainda mais arriscada foi a aposta em Amorim a troco de mais de 10 milhões, isto por um treinador com uma carreira de poucos meses na 1ª liga. Um verdadeiro "all in" de quem parecia já não ter nada a perder, mas o "e se der certo", saiu melhor do que a encomenda.

A traição de Amorim foi dolorosa e a herança era pesada, pelo que, depois do estrondoso falhanço com Pereira e de se ter safado com Borges, Varandas, até porque depois do jackpot com Amorim está com os bolsos cheios, não quis voltar a arriscar num jovem - mesmo que agora eu veja em Luís Pinto mais do que via nos outros todos quando chegaram a Alvalade - e desta vez apostou num treinador feito.

Dizia-se que os grandes amores de Varandas andam lá pelo Brasil, mas parece que ele já namorava há mais de um ano com outro que estava em França, uma paixão antiga e correspondida, que, no caso do treinador, já vinha desde a infância. Portanto, e tudo somado, pode-se facilmente concluir que afinal o casamento com Rui Borges nunca foi assim tão feliz, mesmo que o Presidente se tenha desfeito em elogios na hora da despedida, numa espécie de: "tu és a melhor pessoa do mundo, mas falta qualquer coisa". 

Rei morto, rei posto e bastaram um lindo vídeo de apresentação e a primeira conferência de imprensa para se perceberem algumas diferenças, principalmente na fluidez do discurso e nas ideias claras, mesmo que a minha mulher tenha reparado que este não tem as orelhas grandes e arranja o cabelo. Pode ser que seja ele a fazer-nos esquecer a rapariga mais bonita da escola.

Paulo Fonseca tem mundo e experiência. Falhou no Porto quando ainda era muito novo e em Milão. Pelo meio limpou tudo na Ucrânia. No resto da sua carreira cumpiu sempre os serviços mínimos, embora, como eles já vão dizendo por aí, em Roma, Lille e Lyon nem uma tacinha tenha ganho, coisa que tinha feito em Braga, mas isso já esqueceram, foi há muito tempo.

O novo treinador do Sporting começou logo por chutar para fora a ideia de Tiago Fernandes, pois não gosta de  jogar com uma linha de três na defesa. Dizem que o 4-2-3-1 ou o 4-3-3 são os seus sistemas preferidos, pelo que, pelo menos neste capítulo, não vamos ter grandes mudanças.

Perante as óbvias debilidades defensivas de uma equipa que tem 16 golos sofridos em 15 jogos, Paulo Fonseca já percebeu que tem de pôr o Sporting a defender bem e é aqui que eu estou curioso para ver as mudanças que ele vai fazer com estes mesmos jogadores.

Com o novo técnico vieram um adjunto, um preparador físico, um analista e dois treinadores de guarda-redes, embora eu preferisse uma equipa médica nova, mas, sendo assim, vamos lá ver quem será o dono da baliza hoje à noite. Pelo que vi de Kaique Pereira, ainda não foi desta que acertámos. Aposto que continua o Rui Silva.

Nas laterais não há dúvidas porque não há alternativas aos titulares; o problema está no centro da defesa, onde Eduardo Felicíssimo pode ser a surpresa da época, pois o central mais caro da história do Sporting cheira a flop e Zeno Debast cheira a St. Juste.

O duplo pivot do meio-campo também parece formado  e talvez seja aqui que a equipa tem de começar a defender melhor, até porque Paulo Fonseca já foi alertando para o facto do futebol ter mudado muito nos últimos anos, com a pressão alta a surgir como o antídoto para a revolução que foi aquela ideia do Guardiola, que agora todos querem imitar, com a saída de bola a partir do guarda-redes.

Estou curioso também para perceber quem serão os três atrás de Luis Suárez. Extremos ou interiores, ou um de cada, dando a ala a um dos laterais, que no caso deste Sporting só pode ser o esquerdo. E quem é que joga nas costas do ponta de lança? Não havendo um 10 puro, será aqui que pode caber Issa Doumbia? Ou neste caso a ideia de Tiago Fernandes quando jogou com Fotis Ioannidis já não é para deitar fora. E Nestory Irankunda onde é que entra? Será que pode casar com Maxi Araújo? E Rodrigo Zalazar? Pode ser 10? Ou vai sentar Geny Catamo? Ou então casar com ele, recuando o moçambicano para lateral.

Mais logo já teremos algumas respostas. Depois o mercado reabre em Janeiro e começa a dança, sendo que o resultado do jogo do Dragão será decisivo para se perceber se está na altura de preparar a nova época ou se Paulo Fonseca não só acredita, como pode realmente voltar a fazer-nos acreditar.

 


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