Assalto ao poder


Desde há muito que no futebol português se criou a perceção de que para ganhar era fundamental controlar os bastidores, principalmente a arbitragem. 

Depois do 25 de Abril, Pedroto e Pinto da Costa aproveitando a democratização da FPF, criaram aquilo que ficou para a história como "o sistema", que mais não era do que o controle dos Conselhos de Justiça, de Disciplina e principalmente de Arbitragem e foi assim que o FC Porto, que até aí só tinha ganho 4 Campeonatos de Portugal e outros tantos Campeonatos Nacionais, conseguiu acabar com aquilo que eles apelidavam de "a ditadura BSB" que centrava o poder nos três grandes de Lisboa (na altura o Belenenses ainda era visto como um clube grande).

O que é certo é que o FCP conseguiu acabar com a hegemonia do Benfica, que sendo o clube de maior implantação em Portugal lá foi dando luta, enquanto o Sporting de João Rocha deixou de ser o clube dos ricos para passar a ser o clube dos fascistas, sendo prejudicado a vários níveis durante os anos que se seguiram à revolução de 1974, ao mesmo tempo que era completamente afastado da luta pelos títulos, ao ponto de se chegar a falar na "belenização" do Sporting, pois o Belenenses foi riscado do mapa, como muitos outros clubes do sul.

Depois de quase 20 anos de travessia no deserto, surgiu o "Projeto Roquete" que foi o primeiro tiro no porta-aviões que era o tal "sistema", mas a "época do quase", a crise financeira do início do século XXI e gestões desastrosas voltaram a empurrar o Sporting para baixo.

Foi nessa altura que surgiu o Benfica do Vieira, liderado por um "afilhado" de Pinto da Costa que replicou o tal "sistema", mas com o requinte de alargar a zona de influências a outras áreas de poder como a política e a justiça, o que lhes deu uma sensação de tal segurança que chegaram a afirmar que estavam 10 anos à frente dos outros.

O envelhecimento de Pinto da Costa, que se deixou enredar pelos sangue-sugas que o rodeavam, e a queda do império criado pelos patos bravos, que foram desmascarados pelo inestimável serviço público prestado pelo genial pirata informático Rui Pinto, abriram caminho para a libertação da arbitragem, que, munida desse precioso instrumento que é o VAR pôde finalmente respirar um pouco de ar puro.

No meio disto tudo surgiu o "furacão Bruno" que acordou o Sporting, mas que depois o empurrou para a beira do abismo, de tal forma que mais uma vez se prognosticou o fim do clube enquanto grande, mas contra marés de fora e de dentro, o Sporting voltou a ganhar e até a aspirar a um ciclo de supremacia, o que logo fez com que alguém vislumbrassse "o manto verde", porque eles estão de tal forma formatados para ganharem assim, que acham que não há outra maneira de o conseguir. Foram muitos anos disto e daquilo.

É neste cenário que Duarte Gomes se demite do cargo de diretor técnico da arbitragem, apontando o dedo ao Presidente do CA que não lhe terá dado explicações convincentes em relação àquilo que ele considerou serem factos graves relacionados com as nomeações dos árbitros.

Uma verdadeira bomba que caiu ao colo de Luciano Gonçalves, cuja cabeça foi de imediato pedida por Benfica e FC Porto, mas basicamente o que aconteceu foi que o árbitro Hélder Malheiro terá sido informado com antecedência, por um dos muitos chico-espertos que andam à volta do futebol, da sua nomeação para um jogo do Estrela da Amadora, pertensamente como forma de o pressionar a dar uma mãozinha, mas esses factos só chegaram ao conhecimento de Duarte Gomes depois de sair a nomeação para a Final da Taça de Portugal, um jogo que Hélder Malheiro teria expetativas de arbitrar, como uma espécie prémio de uma carreira mediocre que terminou na época passada. Ou seja, como não lhe deram o rebuçado, pôs a boca no trombone.

De imediato, exigiram-se reações de Pedro Proença, que andava por terras do tio Trump, a contas com os desaires da seleção, e por lá ficou à espera de que a tempestade passasse. Debalde, pois não demorou muito para que que fossem vazados uns áudios comprometedores gravados há dois anos numa reunião entre o então candidato a presidência da FPF e o Benfica, representado pelas suas mais altas figuras, nos quais no meio de algum vernáculo, Pedro Proença dizia algumas verdades politicamente incorretas sobre a arbitragem, que é realmente muito fraca, sobre o Benfica que na ressaca do "vieirismo" passava mais tempo enriçado em processos judiciais do que a disputar competições desportivas e até sobre o Zé, que tirando aquela parte muito baixa do bairro da lata, é realmente um daqueles rapazes que vive do futebol e não sabe fazer mais nada.

Julgo que não será muito difícil perceber as origens e as motivações destas gravações guardadas à espera do momento oportuno para serem usadas como arma de arremesso que fragiliza Pedro Proença, mas também Rui Costa.

É óbvio que quem gravou foi alguém do Benfica, pois Pedro Proença e quem foi com ele não teriam interesse nenhum nisso, mas o autor dessa maldade pode até nem ter estado presente na reunião, pois seguramente havia no Benfica quem soubesse onde e quando ela se ia realizar e, nos dias de hoje, é muito fácil colocar um gravador escondido numa sala.

A pergunta que se segue é: quem, no universo benfiquista, tem interesse em derrubar Rui Costa e Pedro Proença? Mesmo que haja para aí muita gente a fazer-se de tolinho, a resposta parece óbvia e as motivações também, até porque nos próximos anos vai haver muito dinheiro a rolar no Mundial 2030 e nas obras previstas para o Estádio da Luz, pelo que as presidências do Benfica e da Federação passaram a ser ainda mais apetecíveis. 

Trata-se, evidentemente de um assalto ao poder de quem acha que é preciso regressar ao passado para ganhar recuperando o poder no Benfica e nos bastidores do futebol português, um processo que até tem algumas semelhanças com o que aconteceu no FCP quando depois de um ano desastroso, André Vilas Boas foi obrigado a perceber que a cultura belicista é um órgão vital naquele clube, só que no Benfica a ideia não é moldar o presidente, é derrubá-lo, até porque há contas para ajustar. Como diria o velho Octávio: "Vocês sabem do que é que eu estou a falar."


Comentários

  1. Boca santa! Uma viagem no tempo que culmina com aquela pergunta de um milhão "Quem não sabe?"

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