A lei 14


E de repente as recentes alterações do IFAB à lei 14 tornaram-se no centro da discussão no futebol português, porque de acordo com a interpretação da esmagadora maioria dos antigos árbitros que hoje são doutos comentadores de arbitragem, alguns dos quais nunca ninguém antes tinha ouvido falar, acha que a decisão de João Pinheiro e do VAR em não mandar repetir o penálti falhado por Luis Suárez, foi correta, porque segundo eles não havia nenhum jogador do Sporting a disputar a bola com Schjelderup, escudando-se para tal na letra da lei que passo a transcrever na sua versão original em inglês e na tradução que tem circulado por aí.

  •    a team-mate of the goalkeeper is penalised for encroachment only if:

    • the encroachment clearly impacted on the kicker; or

    • the encroaching player plays the ball or challenges an opponent for the ball and this prevents the opponents from scoring, attempting to score or creating a goal-scoring opportunity


O que traduzindo dá: 

o colega de equipa do guarda-redes é penalizado pela invasão só se: a invasão tiver um claro impacto no executante; ou se o jogador que invadiu a área joga a bola ou disputa-a com um adversário e isso evita que o adversário marque golo, tente marcar golo ou crie uma oportunidade de golo.

O que eu leio aqui é que o invasor deve ser penalizado quando joga a bola OU disputa-a com um adversário, sendo que o que vem a seguir pode, ou não, referir-se apenas à parte da disputa da bola. Mas mesmo que a parte final se refira também ao jogar a bola, no caso em apreço parece-me claro que quando Schjelderup joga a bola, impede os jogadores do Sporting na direção dos quais ela vai, neste caso Morten Hjulmand e Geny Catamo, de a disputar, sendo que eles ficariam em posição, se não de rematar, pelo menos de criar uma oportunidade de golo. 

De resto, Iturralde Gonzalez explica isso muito bem no Record, mas ele é espanhol e, portanto, não só não é adepto de nenhum clube em Portugal, como provavelmente não será amigo nem de João Pinheiro, nem de ninguém da confraria da arbitragem portuguesa, daí que as suas opiniões não estejam condicionadas por clubismos ou corporativismos bacocos.

Vejamos então o que diz o antigo árbitro internacional espanhol: 

Schjelderup entra na área e interfere na jogada. Não precisa de pressão do adversário. Limpa a bola, interfere e tira beneficio. Como é que Schjelderup não tem impacto aqui quando é ele que limpa a bola? Se o tirarmos da equação, para além de Ivanovic que também invade a área, para onde a bola ressalta? Para três jogadores do Sporting, especialmente Hjulmand que pode rematar.

Elementar, meus caros especialistas de arbitragem.

Melhor ainda esteve Bruno Prata, um jornalista insuspeito que escreveu isto:

Percebo que a clarificação mais recente do IFAB relativamente à lei 14 pretenda que a entrada antecipada de um jogador na área só seja sancionada quando existe impacto material no desenrolar do lance. Mas tenho dificuldade em aceitar, como pretende a esmagadora maioria dos nossos especialistas de arbitragem, que isso se aplique quando o jogador prevaricador é também o que alivia a bola após a defesa do seu guarda-redes. Não tinha um adversário próximo? Claro, foi essa precisamente a vantagem de ter arrancado fora de tempo. Estou muito mais perto da opinião do espanhol Iturralde Gonzalez, até porque os penáltis vão transformar-se num circo se vingar a tese dos nossos especialistas. 

Pois é, muito se tem falado também no espírito da lei e aqui eu pergunto: acham que na presença deste lance o legislador vai defender que esta lei beneficie o infrator? A mim parece-me que se este lance tivesse acontecido num Felgueiras-Farense sob a arbitragem dum zé do apito qualquer, não havia ninguém às voltas para defender o indefensável.

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